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Hidrocefalia de pressão normal: uma causa tratável de dificuldade para andar e esquecimento no idoso

Foto do escritor: Dr Igor Andrade
Dr Igor Andrade
15 de out.
5 min de leitura

Ilustração de derivação ventriculoperitoneal em idoso com hidrocefalia de pressão normal

Uma pessoa idosa começa a andar mais devagar, com passos curtos, como se os pés estivessem presos ao chão. Ao mesmo tempo, fica mais esquecida e passa a ter urgência para urinar.

Muitas famílias atribuem esse quadro à idade, ao Alzheimer ou ao Parkinson. Mas uma parte desses pacientes tem hidrocefalia de pressão normal (HPN), uma condição que pode melhorar com tratamento cirúrgico.

Reconhecer a HPN faz diferença: ela é uma das causas de piora da marcha e da memória que têm tratamento.


🧠 O que é a hidrocefalia de pressão normal

Hidrocefalia é o acúmulo de líquor, o líquido que envolve o cérebro e a medula, com dilatação dos ventrículos cerebrais. Na HPN, essa dilatação se instala devagar, e a pressão medida na punção lombar costuma estar dentro ou perto do normal, daí o nome.

A forma mais comum é a idiopática, sem causa definida, que aparece em geral depois dos 60 anos. Existe também a forma secundária, que pode surgir em qualquer idade após hemorragia cerebral, meningite ou traumatismo craniano.


🚶 Sintomas: a tríade da HPN

Os sintomas clássicos formam uma tríade, descrita em 1965 pelo neurocirurgião colombiano Salomón Hakim e pelo neurologista Raymond Adams:

  • Marcha: passos curtos e arrastados, pernas mais afastadas, dificuldade para começar a andar e para fazer curvas, desequilíbrio e quedas. Costuma ser o primeiro e o mais marcante.

  • Cognição: lentidão do raciocínio, desatenção, apatia e esquecimento.

  • Controle urinário: urgência, aumento da frequência e, com a evolução, incontinência.

Nem todos os pacientes têm os três sintomas. A alteração da marcha, porém, está presente na grande maioria e é a principal pista para o diagnóstico.


🔄 Por que a HPN é confundida com Alzheimer e Parkinson

Os sintomas da HPN se sobrepõem aos de doenças comuns na mesma faixa etária. Algumas diferenças ajudam a levantar a suspeita.

Na apresentação mais comum do Alzheimer, a dificuldade para formar novas memórias costuma predominar no início. Na HPN, a alteração da marcha frequentemente chama atenção primeiro.

A HPN também pode provocar passos curtos, lentidão e dificuldade para iniciar a caminhada, lembrando o Parkinson. O padrão da marcha, o exame neurológico e a resposta aos medicamentos ajudam na diferenciação, mas nenhum desses elementos, isoladamente, confirma ou exclui o diagnóstico.

As doenças também podem coexistir, o que torna a avaliação especializada ainda mais importante. O exame de imagem e os testes funcionais ajudam a separar os quadros.


🔍 Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico combina avaliação clínica, exame de imagem e testes que simulam o efeito do tratamento.

A tomografia ou a ressonância do crânio mostram ventrículos dilatados de forma desproporcional à atrofia do cérebro, além de outros sinais característicos. A ressonância é o exame preferido, por mostrar mais detalhes.

O passo seguinte costuma ser o tap test: uma punção lombar que retira cerca de 30 a 50 mL de líquor. A marcha é avaliada antes e depois da retirada do líquor, com testes padronizados e, quando possível, vídeo. A melhora pode aparecer nas primeiras horas ou nos dias seguintes, por isso podem ser necessárias avaliações em momentos diferentes.

Uma resposta positiva aumenta a probabilidade de benefício com a cirurgia. Um resultado negativo, porém, não exclui a HPN nem a possibilidade de melhora. Quando a suspeita permanece alta, a equipe pode considerar repetir o teste, realizar drenagem lombar externa ou utilizar outros exames especializados.


🩺 Tratamento: a válvula de derivação

O tratamento padrão é a derivação do líquor, feita com uma válvula. Na técnica mais usada, a derivação ventriculoperitoneal, um cateter fino leva o excesso de líquor dos ventrículos até o abdome, onde ele é absorvido naturalmente.

As válvulas programáveis permitem ajustar a drenagem depois da cirurgia, com um aparelho externo e sem nova operação. Isso ajuda a evitar drenagem excessiva ou insuficiente.

A cirurgia é de curta duração, e a internação costuma ser de poucos dias. Há variações da técnica, como a derivação lomboperitoneal, escolhidas caso a caso. A terceiroventriculostomia endoscópica, útil em outros tipos de hidrocefalia, não é o tratamento padrão da HPN idiopática.


📈 Resultados: o que esperar

A maioria dos pacientes bem selecionados melhora após a cirurgia. A marcha é o sintoma que mais responde e, muitas vezes, o primeiro a melhorar.

A melhora da memória e do controle urinário é possível, mas menos previsível. Quanto mais cedo o tratamento, maiores as chances de bom resultado, porque sintomas de longa data tendem a responder menos.

Com os anos, o benefício pode diminuir, em parte por outras doenças do envelhecimento. Por isso, o acompanhamento regular faz parte do tratamento. Para saber o que esperar do pós-operatório, veja quanto tempo leva a recuperação após cirurgia neurológica.


⚠️ Riscos da cirurgia

Os principais riscos são:

  • infecção da válvula

  • obstrução ou mau funcionamento, que pode exigir revisão cirúrgica

  • drenagem excessiva, com dor de cabeça ou coleção de líquido (higroma subdural) ou de sangue (hematoma subdural) entre o cérebro e o crânio

  • sangramento cerebral, raro

Na válvula programável, a drenagem excessiva muitas vezes pode ser corrigida no consultório, sem nova cirurgia.


📍 Quando procurar avaliação

Vale procurar avaliação quando uma pessoa idosa apresenta:

  • piora progressiva da marcha, com passos curtos e quedas

  • esquecimento ou lentidão junto com a dificuldade para andar

  • urgência ou perda de urina sem outra causa aparente

  • ventrículos dilatados descritos em tomografia ou ressonância

Muitas vezes, quem percebe primeiro é a família. O diagnóstico envolve neurologista e neurocirurgião, e a decisão sobre a cirurgia é sempre individual.

Se o quadro lembra Parkinson, leia também: existe cirurgia para Parkinson? E, para entender o papel de cada especialista, veja a diferença entre neurologista e neurocirurgião.


❓ Perguntas frequentes

Hidrocefalia de pressão normal tem cura?

A válvula pode melhorar de forma importante e duradoura os sintomas, principalmente a marcha. Não elimina a causa, por isso o acompanhamento continua por toda a vida.

A válvula é para sempre?

Em geral, sim. Ela fica implantada sob a pele e pode precisar de ajustes ou, em alguns casos, de revisão cirúrgica.

Quem tem válvula programável pode fazer ressonância?

Em muitos casos, sim, desde que sejam respeitadas as condições de segurança do modelo implantado. Informe à equipe de radiologia que possui uma válvula e apresente sua identificação. Alguns modelos exigem conferência da regulagem antes e depois do exame.

Existe idade limite para operar?

Não existe um limite fixo. Pacientes acima de 80 anos também podem se beneficiar, quando a avaliação clínica indica condições para a cirurgia.

Os sintomas podem voltar depois da cirurgia?

Sim. A piora pode estar relacionada ao funcionamento ou à regulagem da válvula, mas também a outras doenças. O retorno dos sintomas após uma melhora inicial merece reavaliação para identificar a causa.


📚 Referências

  1. Hakim S, Adams RD. The special clinical problem of symptomatic hydrocephalus with normal cerebrospinal fluid pressure: observations on cerebrospinal fluid hydrodynamics. J Neurol Sci. 1965;2(4):307-327.

  2. Relkin N, Marmarou A, Klinge P, Bergsneider M, Black PM. Diagnosing idiopathic normal-pressure hydrocephalus. Neurosurgery. 2005;57(3 Suppl):S4-16.

  3. Halperin JJ, Kurlan R, Schwalb JM, et al. Practice guideline: idiopathic normal pressure hydrocephalus: response to shunting and predictors of response. Neurology. 2015;85(23):2063-2071.

  4. Nakajima M, Yamada S, Miyajima M, et al. Guidelines for management of idiopathic normal pressure hydrocephalus (third edition). Neurol Med Chir (Tokyo). 2021;61(2):63-97.

  5. Luciano MG, Williams MA, Hamilton MG, et al. A randomized trial of shunting for idiopathic normal-pressure hydrocephalus. N Engl J Med. 2025;393(22):2198-2209. doi:10.1056/NEJMoa2503109.


Onde o Dr. Igor Andrade atende

O Dr. Igor Andrade é neurocirurgião e atende em Ilhéus (Clínica AMO) e Itabuna (Mediar Saúde). Na consulta, ele avalia a suspeita de hidrocefalia de pressão normal, define os exames e discute a indicação de tratamento.



Dr. Igor Andrade – Neurocirurgião | CRM-BA 30171 | RQE 25878

Clínica AMO: Av. Soares Lopes, 1266, Ilhéus. Mediar Saúde: Av. Aziz Maron, 1117, sala 305, Itabuna. Veja também as páginas de neurocirurgião em Ilhéus e neurocirurgião em Itabuna.

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