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Epilepsia tem cura? Quando a cirurgia é indicada

Foto do escritor: Dr Igor Andrade
Dr Igor Andrade
15 de out.
6 min de leitura

Ilustração do hipocampo em destaque no lobo temporal, estrutura envolvida na epilepsia do lobo temporal

Ouvir o diagnóstico de epilepsia costuma trazer uma pergunta imediata: tem cura? A resposta depende do tipo de epilepsia, da causa e da resposta ao tratamento.

A boa notícia é que a maioria das pessoas consegue controlar as crises com medicamentos. E, para parte dos pacientes em que os remédios não funcionam, a cirurgia pode acabar com as crises.


🧠 Epilepsia tem cura?

Muitas pessoas com epilepsia conseguem viver sem crises com o tratamento adequado. Algumas podem, após avaliação individual, suspender os medicamentos e permanecer sem crises. Em determinados tipos de epilepsia, a cirurgia também pode proporcionar controle duradouro. Ainda assim, ficar sem crises não significa necessariamente cura definitiva.

A Organização Mundial da Saúde estima que até 70% das pessoas com epilepsia poderiam ficar livres de crises com diagnóstico e tratamento adequados. Esse número se refere ao controle das crises, não a uma taxa de cura.

A Liga Internacional contra a Epilepsia (ILAE) considera a epilepsia resolvida em duas situações. A primeira é quando uma síndrome típica de certa idade, comum na infância, já passou dessa fase. A segunda é quando a pessoa está há 10 anos sem crises, sendo os últimos 5 sem medicamentos. O termo indica que a pessoa deixou de ter epilepsia, mas não garante que as crises nunca voltem.

Fora dessas situações, o objetivo do tratamento é o controle completo das crises, com o mínimo de efeitos colaterais.


💊 O que é epilepsia refratária

Cerca de um terço dos pacientes continua tendo crises apesar do tratamento. Quando isso acontece após dois esquemas de tratamento adequadamente escolhidos, tolerados e empregados, com medicamentos usados isoladamente ou em combinação, a epilepsia é chamada de refratária, ou farmacorresistente.

A maioria dos pacientes que alcança controle com medicamentos responde aos primeiros esquemas utilizados. Após a falha de dois tratamentos adequados, a chance de controle apenas com novas trocas diminui, embora não seja zero. Por isso, a avaliação especializada não deve ser adiada.

Antes de confirmar a refratariedade, é preciso afastar causas evitáveis: diagnóstico incorreto, remédio inadequado para o tipo de crise, dose insuficiente ou uso irregular.


🔍 Quem pode ser candidato à cirurgia

Toda pessoa com epilepsia farmacorresistente deve ser considerada para avaliação em um centro especializado. Essa avaliação verifica se existe uma região responsável pelas crises que possa ser tratada com segurança ou se outras opções, como procedimentos de desconexão e neuromodulação, podem ajudar.

As situações em que a cirurgia mais costuma ser indicada incluem:

  • esclerose hipocampal, uma das principais causas de epilepsia do lobo temporal resistente aos remédios

  • tumores de baixo grau associados à epilepsia, como o ganglioglioma e o tumor neuroepitelial disembrioplásico

  • cavernomas e outras lesões vasculares

  • displasias corticais, alterações na formação do córtex cerebral

  • algumas epilepsias da infância que acometem um hemisfério inteiro

A ausência de lesão visível na ressonância não impede a avaliação. Em crianças, a avaliação precoce é ainda mais importante, porque o controle das crises protege o desenvolvimento.


📋 Como é a avaliação antes da cirurgia

A avaliação pré-cirúrgica responde a duas perguntas: de onde vêm as crises e qual a função daquela região. Ela envolve neurologista especializado em epilepsia, neurocirurgião, neuropsicólogo e radiologista.

Os principais exames são:

  • vídeo-eletroencefalograma, que registra as crises enquanto acontecem

  • ressonância magnética com protocolo específico para epilepsia

  • avaliação neuropsicológica de memória, linguagem e outras funções

  • em alguns casos, PET, SPECT ou ressonância funcional

Quando os exames não concordam entre si, pode ser preciso implantar eletrodos dentro do cérebro para registrar as crises com mais precisão. Uma das técnicas utilizadas é a estereoeletroencefalografia (SEEG).


🩺 Tipos de cirurgia

A técnica depende da causa e da localização das crises:

  • Ressecção: retirada da área que origina as crises, como na lobectomia temporal ou na remoção de uma lesão.

  • Desconexão: interrupção das vias por onde as crises se espalham, como na hemisferotomia e na calosotomia.

  • Ablação: destruição de um foco pequeno por calor, com laser ou radiofrequência, por técnica minimamente invasiva disponível em poucos centros.

  • Neuromodulação: estimulação do nervo vago ou estimulação cerebral profunda, que reduzem a frequência das crises quando não é possível operar o foco.

Para entender como as técnicas menos invasivas mudaram a neurocirurgia, veja menos cortes, mais precisão.


📈 Resultados da cirurgia

Na epilepsia do lobo temporal, a cirurgia tem os resultados mais bem estudados. Em um estudo randomizado publicado no New England Journal of Medicine, 58% dos operados ficaram livres de crises que comprometem a consciência após um ano, contra 8% dos que seguiram só com medicamentos.

Quando há uma lesão bem delimitada, como um tumor de baixo grau ou um cavernoma, as taxas de controle também são altas. Os resultados são menores quando a área das crises não aparece na ressonância ou fica perto de regiões com funções importantes.

Após a cirurgia, os medicamentos geralmente são mantidos inicialmente. A possibilidade e o momento de reduzir as doses dependem do tipo de epilepsia, da cirurgia realizada, da evolução das crises e dos exames de acompanhamento. Alguns pacientes precisam continuar o tratamento por longo prazo.


⚠️ Riscos da cirurgia e da epilepsia não controlada

Os riscos dependem da área operada. Podem incluir alterações de memória ou de linguagem, perda de parte do campo visual e as complicações gerais de qualquer cirurgia, como infecção e sangramento. A avaliação pré-cirúrgica serve justamente para estimar esses riscos em cada caso.

Também é preciso considerar os riscos da epilepsia não controlada. A persistência das crises pode aumentar o risco de quedas e acidentes, além de prejudicar a qualidade de vida. Crises tônico-clônicas não controladas estão particularmente associadas ao risco de morte súbita inesperada na epilepsia, chamada SUDEP.


📍 Quando procurar avaliação

Procure avaliação especializada se:

  • as crises continuam após dois tratamentos adequados

  • os efeitos colaterais dos remédios atrapalham a vida diária

  • a ressonância mostrou uma lesão relacionada às crises

  • uma criança com epilepsia tem crises frequentes ou atraso no desenvolvimento

A avaliação não obriga a operar. Ela mostra se a cirurgia é uma opção e qual o benefício esperado.

Crises também podem ser o primeiro sinal de um tumor: leia o que você precisa saber sobre tumores cerebrais. E veja a diferença entre neurologista e neurocirurgião no cuidado da epilepsia.


❓ Perguntas frequentes

Epilepsia tem cura com remédio?

Os remédios controlam as crises, mas não eliminam a causa. Algumas epilepsias, porém, desaparecem com o tempo, sobretudo as da infância.

Cirurgia de epilepsia é perigosa?

Toda cirurgia tem riscos. Em pacientes bem selecionados, o benefício costuma superá-los, e a avaliação pré-cirúrgica estima os riscos de cada caso.

Depois da cirurgia, vou parar os remédios?

Depende da evolução. Muitos pacientes sem crises reduzem as doses, e parte deles suspende os medicamentos, sempre de forma gradual e com acompanhamento.

Criança pode operar epilepsia?

Pode. Em casos selecionados, a cirurgia precoce ajuda a controlar as crises e a proteger o desenvolvimento.

Quando devo pensar em cirurgia?

Se as crises continuam após dois tratamentos adequados, a avaliação já está indicada. Muitos pacientes que poderiam se beneficiar só chegam a ela depois de anos de crises.


📚 Referências

  1. Fisher RS, Acevedo C, Arzimanoglou A, et al. ILAE official report: a practical clinical definition of epilepsy. Epilepsia. 2014;55(4):475-482.

  2. Kwan P, Arzimanoglou A, Berg AT, et al. Definition of drug resistant epilepsy: consensus proposal by the ad hoc Task Force of the ILAE Commission on Therapeutic Strategies. Epilepsia. 2010;51(6):1069-1077.

  3. Jehi L, Jette N, Kwon CS, et al. Timing of referral to evaluate for epilepsy surgery: Expert Consensus Recommendations from the Surgical Therapies Commission of the International League Against Epilepsy. Epilepsia. 2022;63(10):2491-2506.

  4. Kwan P, Brodie MJ. Early identification of refractory epilepsy. N Engl J Med. 2000;342(5):314-319.

  5. Wiebe S, Blume WT, Girvin JP, Eliasziw M. A randomized, controlled trial of surgery for temporal-lobe epilepsy. N Engl J Med. 2001;345(5):311-318.

  6. Dwivedi R, Ramanujam B, Chandra PS, et al. Surgery for drug-resistant epilepsy in children. N Engl J Med. 2017;377(17):1639-1647.

  7. Organização Mundial da Saúde. Epilepsy: fact sheet. 2024.


Onde o Dr. Igor Andrade atende

O Dr. Igor Andrade é neurocirurgião e atende em Ilhéus (Clínica AMO) e Itabuna (Mediar Saúde). Na consulta, ele analisa o histórico das crises e os exames, e orienta sobre a indicação de avaliação pré-cirúrgica.



Dr. Igor Andrade – Neurocirurgião | CRM-BA 30171 | RQE 25878

Clínica AMO: Av. Soares Lopes, 1266, Ilhéus. Mediar Saúde: Av. Aziz Maron, 1117, sala 305, Itabuna. Veja também as páginas de neurocirurgião em Ilhéus e neurocirurgião em Itabuna.

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