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Existe cirurgia para Parkinson? Entenda a estimulação cerebral profunda (DBS)

Foto do escritor: Dr Igor Andrade
Dr Igor Andrade
15 de out.
6 min de leitura


Ilustração de estimulação cerebral profunda para Parkinson, com eletrodo no cérebro ligado a um gerador abaixo da clavícula

Quem convive com a doença de Parkinson sabe que os remédios funcionam muito bem nos primeiros anos. Com o tempo, porém, o efeito de cada dose pode durar menos, e surgem oscilações ao longo do dia.

Nessa fase, muitos pacientes e familiares perguntam se existe cirurgia para Parkinson. A resposta é sim: a estimulação cerebral profunda, conhecida pela sigla DBS (do inglês deep brain stimulation), é um tratamento consolidado para pacientes selecionados.

Ela não cura a doença. Mas pode reduzir de forma importante os sintomas motores, aumentar o tempo do dia com bom controle dos movimentos e favorecer a autonomia.


🧠 A cirurgia cura o Parkinson?

Não. O Parkinson é uma doença neurodegenerativa e progressiva, e nenhuma cirurgia interrompe essa evolução.

O que a DBS faz é controlar sintomas motores: tremor, rigidez, lentidão dos movimentos, flutuações ao longo do dia e movimentos involuntários causados pelos remédios. Em estudos comparativos, pacientes operados tiveram melhor controle motor e melhor qualidade de vida do que os tratados apenas com medicamentos.


⚡ Como funciona a estimulação cerebral profunda

Na DBS, eletrodos muito finos são implantados em pontos profundos do cérebro que participam do controle dos movimentos. Os alvos mais usados são o núcleo subtalâmico e o globo pálido interno.

Os eletrodos são ligados, por um cabo sob a pele, a um gerador de pulsos implantado abaixo da clavícula, semelhante a um marca-passo cardíaco. O gerador emite estímulos elétricos contínuos que regulam os circuitos alterados pela doença.

Diferentemente dos procedimentos lesionais, a DBS não tem como objetivo destruir uma área do cérebro. A estimulação pode ser ajustada ou desligada, mas o implante envolve riscos cirúrgicos próprios.


🔍 Quem pode ser candidato à cirurgia

A indicação é individual e depende de avaliação conjunta entre neurologista e neurocirurgião. De forma geral, o candidato reúne estas características:

  • Diagnóstico de doença de Parkinson idiopática, a forma clássica da doença. A confirmação do diagnóstico ao longo do acompanhamento é fundamental, porque outras síndromes parkinsonianas, como a atrofia de múltiplos sistemas e a paralisia supranuclear progressiva, em geral não respondem à DBS.

  • Boa resposta à levodopa: os sintomas melhoram claramente com o remédio, o que costuma ser medido em um teste formal com levodopa.

  • Complicações motoras que persistem apesar do ajuste dos medicamentos, como o efeito que acaba antes da próxima dose, as discinesias e os períodos “off”, quando o efeito do medicamento diminui e os sintomas reaparecem.

  • Ou tremor incapacitante que não melhora o suficiente com medicação.

  • Ausência de demência significativa ou de doença psiquiátrica não controlada.

  • Condições clínicas para a cirurgia.

A idade, isoladamente, não é uma contraindicação absoluta. O que pesa é o estado clínico, a cognição e o equilíbrio entre o benefício esperado e o risco. O momento da avaliação depende dos sintomas, das complicações do tratamento e das condições de cada paciente.

Antes da decisão, costumam ser feitos ressonância magnética do crânio, avaliação neuropsicológica e o teste de resposta à levodopa.


⚖️ O que melhora e o que não melhora

Uma regra prática ajuda a entender o resultado: o que melhora com a levodopa tende a melhorar com a DBS. A exceção é o tremor, que costuma responder à estimulação mesmo quando resiste aos remédios.

Em geral, melhoram:

  • tremor, rigidez e lentidão dos movimentos

  • oscilações entre os períodos “on” e “off”

  • discinesias, diretamente ou pela redução da dose de medicamentos

Os limites também precisam ficar claros. A DBS não trata a demência. Alterações da fala, da deglutição e do equilíbrio têm resposta menos previsível, e algumas podem piorar.

O congelamento da marcha que persiste mesmo no período “on” também costuma responder pouco. Já os efeitos sobre sintomas não motores variam e devem ser discutidos individualmente.

Por isso, alinhar expectativas antes da cirurgia é parte essencial da avaliação.


🩺 Como é feita a cirurgia

O planejamento usa ressonância magnética e, muitas vezes, tomografia, para localizar o alvo com precisão milimétrica. Em muitos centros, os eletrodos são implantados com o paciente acordado, com anestesia local e medidas para controle da dor e do desconforto. Isso permite registrar a atividade dos neurônios e testar a estimulação na hora. Outros operam sob anestesia geral e confirmam a posição por imagem durante a cirurgia.

O gerador é implantado sob anestesia geral, no mesmo dia ou em uma segunda etapa. A internação costuma ser curta, de poucos dias.

A programação começa nas semanas seguintes e é refinada ao longo de meses, junto com a redução gradual dos medicamentos, quando indicada. O acompanhamento é contínuo.


⚠️ Quais são os riscos

Como toda cirurgia no cérebro, a DBS tem riscos, discutidos caso a caso. Os principais são:

  • sangramento cerebral, incomum, mas a complicação mais temida

  • infecção do sistema implantado, que pode exigir a retirada do equipamento

  • problemas do equipamento, como deslocamento do eletrodo ou fratura do cabo

  • efeitos da estimulação, como formigamento e alterações da fala ou do humor, que muitas vezes melhoram com ajustes da programação, mas nem sempre desaparecem

A bateria tem duração limitada e é trocada em um procedimento menor. Também existem geradores recarregáveis, com vida útil mais longa.


🔄 Outras opções para o Parkinson avançado

A DBS não é a única alternativa quando os remédios orais deixam de ser suficientes. Em casos selecionados, há procedimentos lesionais, como o ultrassom focado guiado por ressonância para o tremor, e terapias de infusão contínua de medicamentos.

A escolha depende do perfil de sintomas de cada paciente e da disponibilidade de cada técnica.


🏥 Cirurgia de Parkinson pelo SUS e pelo plano de saúde

A estimulação cerebral profunda é uma opção disponível no SUS para pacientes selecionados, conforme os critérios do protocolo do Ministério da Saúde. Pode ser considerada quando flutuações motoras, discinesias ou tremor incapacitante persistem apesar do tratamento adequado. O acesso depende da avaliação em centros de referência e dos fluxos de encaminhamento da rede.

Nos planos de saúde, o implante de eletrodos para estimulação cerebral profunda consta no Rol da ANS, com diretriz de utilização. A cobertura depende da segmentação contratada e do cumprimento dos critérios vigentes da ANS.

Esses critérios de acesso e de cobertura, que podem incluir tempo mínimo de doença, são diferentes da indicação clínica, definida na avaliação individual.


📍 Quando procurar avaliação

Vale conversar com o seu neurologista e buscar uma avaliação neurocirúrgica quando:

  • o efeito de cada dose dura cada vez menos

  • os horários dos remédios ficam cada vez mais próximos

  • surgem movimentos involuntários que atrapalham o dia a dia

  • o tremor continua incapacitante apesar do tratamento

Avaliar cedo não significa operar cedo. Significa saber se a cirurgia é uma opção e qual o melhor momento para ela.

Se ainda há dúvida sobre o papel de cada especialista, veja a diferença entre neurologista e neurocirurgião. E lembre que nem toda dificuldade para andar no idoso é Parkinson: às vezes, a causa é a hidrocefalia de pressão normal, uma condição tratável.


❓ Perguntas frequentes

A cirurgia de Parkinson cura a doença?

Não. A DBS controla sintomas motores, mas não interrompe a evolução da doença.

Existe idade limite para a cirurgia?

Não existe um limite fixo. A decisão considera o estado clínico, a cognição e a resposta à levodopa, mais do que a idade em si.

Depois da cirurgia, posso parar os remédios?

A cirurgia geralmente não elimina a necessidade dos remédios. Muitas vezes é possível reduzir as doses, com ajuste gradual junto com a programação do estimulador.

Preciso ficar acordado durante a cirurgia?

Depende da técnica do centro. Em muitos, a fase dos eletrodos é feita com o paciente acordado, com anestesia local e medidas para controle da dor e do desconforto, para testes em tempo real.

Quem tem DBS pode fazer ressonância magnética?

Depende do modelo do sistema e das condições do exame. Antes de qualquer ressonância, a equipe que acompanha o estimulador deve ser consultada.

A bateria precisa ser trocada?

Nos geradores não recarregáveis, sim, em geral após alguns anos. A troca é um procedimento menor, sem mexer nos eletrodos.


📚 Referências

  1. Deuschl G, Schade-Brittinger C, Krack P, et al. A randomized trial of deep-brain stimulation for Parkinson's disease. N Engl J Med. 2006;355(9):896-908.

  2. Schuepbach WMM, Rau J, Knudsen K, et al. Neurostimulation for Parkinson's disease with early motor complications. N Engl J Med. 2013;368(7):610-622.

  3. Follett KA, Weaver FM, Stern M, et al. Pallidal versus subthalamic deep-brain stimulation for Parkinson's disease. N Engl J Med. 2010;362(22):2077-2091.

  4. Okun MS. Deep-brain stimulation for Parkinson's disease. N Engl J Med. 2012;367(16):1529-1538.

  5. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Parkinson. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de agosto de 2025.

  6. Safarpour D, Spindler M, Turner TH, et al. Consensus expert recommendations for referral of Parkinson's disease patients for deep brain stimulation surgery. npj Parkinsons Dis. 2026;12:30.


Onde o Dr. Igor Andrade atende

O Dr. Igor Andrade é neurocirurgião e atende em Ilhéus (Clínica AMO) e Itabuna (Mediar Saúde). Na consulta, ele avalia se há indicação de tratamento cirúrgico e orienta os próximos passos, em conjunto com o neurologista que acompanha o paciente.



Dr. Igor Andrade – Neurocirurgião | CRM-BA 30171 | RQE 25878

Clínica AMO: Av. Soares Lopes, 1266, Ilhéus. Mediar Saúde: Av. Aziz Maron, 1117, sala 305, Itabuna. Veja também as páginas de neurocirurgião em Ilhéus e neurocirurgião em Itabuna.


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